QUAIS AS QUESTÕES EM TORNO DA APLICAÇÃO DA 4ª DOSE DA VACINA

Estado de São Paulo e prefeitura do Rio falam em novo reforço. Mato Grosso do Sul já começou a aplicação em idosos. Para Ministério da Saúde, faltam dados para sustentar iniciativa

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou na quarta-feira (9) que o estado irá aplicar a quarta dose — também chamada de segunda dose de reforço — da vacina contra a covid-19 em toda a população, a exemplo do que outros governos locais têm considerado ou começado a fazer.

O anúncio contraria a declaração do Ministério da Saúde de que ainda não há dados que sustentam a recomendação de uma quarta dose para os brasileiros. Desde dezembro de 2021, apenas pessoas imunossuprimidas (com imunidade baixa) podem receber esse reforço no país.

O Jornal Nexo, publicou uma matéria que explica os prós e contras da quarta dose, mostrando o que há nas propostas dos governos locais, o que diz o Ministério da Saúde e o que a ciência sabe até agora sobre a aplicação dessa segunda dose de reforço.

O que querem os governos locais
A proposta de Doria para a vacinação com a quarta dose ainda tem poucos detalhes. Segundo João Gabbardo, coordenador-executivo do Comitê Científico do estado, em entrevista à CNN Brasil nesta sexta-feira (11), a aplicação deve começar em abril na população acima de 60 anos.

A condição para que a pessoa receba a quarta dose é que tenha tomado a terceira no mínimo quatro meses antes. Para o restante do público, a prioridade será endossar as campanhas de segunda e terceira dose. Diferentemente do que Doria havia anunciado na quarta (9), Gabbardo disse que não há previsão de que o governo comece a aplicar o novo reforço em toda a população vacinável.

Imagem mostra mulher à esquerda, de máscara, recebendo vacina de profissional de saúde, à direita, que usa avental branco, touca e máscara. Ao fundo, fora de foco, três crianças aguardam sentadas

FOTO: DIEGO VARA/REUTERS – 12.MAI.2021 VACINAÇÃO DE PROFESSORES CONTRA A COVID-19 EM ESCOLA NO RIO GRANDE DO SUL

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também anunciou na quinta-feira (10) a aplicação da quarta dose. Segundo ele, a proposta é que todos na cidade recebam o novo reforço 12 meses depois de terem recebido a terceira dose da vacina. As primeiras aplicações começarão em julho, quando a população idosa completar um ano desde que recebeu a dose anterior.

Governadores do Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Acre também estão entre os que avaliam iniciar a aplicação da quarta dose contra a covid-19. Outros, como o de Mato Grosso do Sul e os prefeitos de Botucatu (SP) e Volta Redonda (RJ), já começaram a aplicar o novo reforço em idosos.

Botucatu, onde a campanha com a quarta dose começou na segunda-feira (7), foi a cidade que realizou uma ação de vacinação em massa contra a covid-19 em 2021 usando o imunizante da AstraZeneca, para que o resultado fosse observado em estudos sobre a efetividade da vacina.

João Doria é um homem branco, cabelos escuros. Ele usa um terno preto e uma máscara facial preta. Segura um microfone com a mão direita

FOTO: DIVULGAÇÃO/GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO O GOVERNADOR DE SÃO PAULO, JOÃO DORIA

Com a chegada da variante ômicron do coronavírus ao Brasil, no fim de novembro, parte dos idosos “completamente vacinados, acima de 70 anos, começaram a apresentar quadros moderados ou graves e passaram a necessitar de internação”, segundo o professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Alexandre Naime em entrevista à CNN.

Novos aumentos de internações e mortes de idosos vacinados com a terceira dose também motivaram a decisão de outros governos. Na quarta-feira (9), Doria, de São Paulo, disse que o quadro justificaria oferecer o novo reforço à população mesmo sem orientação do governo federal.

O que diz o Ministério da Saúde
Poucos dias após os primeiros anúncios dos governos locais, o Ministério da Saúde decidiu nesta sexta-feira (10) que não irá recomendar a quarta dose da vacina contra a covid-19 para a população geral. Segundo técnicos da pasta, não há dados que comprovem a necessidade de uma quarta dose.

O ministério já havia dito em nota técnica publicada na segunda-feira (7) que os dados disponíveis sobre a pandemia no Brasil eram insuficientes para sustentar a recomendação. Em nova avaliação do cenário epidemiológico da covid nesta sexta (11), a conclusão foi confirmada.

Imagem mostra o ministro Marcelo Queiroga, de máscara branca, sentado à mesa na CPI da Covid, enquanto observa o presidente da CPI, o senador Omar Aziz

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS – 6.MAI.2021 O MINISTRO DA SAÚDE, MARCELO QUEIROGA, DURANTE A CPI DA COVID

A pasta recomenda a quarta dose da vacina apenas para pessoas imunossuprimidas, grupo que inclui pessoas com câncer, vivendo com HIV, transplantadas e outras com doenças e condições que afetam o sistema imune. Adultos e adolescentes a partir de 12 anos que se enquadram no grupo podem receber o reforço após quatro meses da terceira dose.

A manifestação da pasta não tem o poder de determinar as ações de estados e municípios. A nota informativa com o teor da decisão do Ministério da Saúde ainda será publicada. Novas discussões sobre o tema poderão ser feitas, caso o cenário epidemiológico mude.

Na quarta-feira (9), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, criticou a “interferência” de governadores e prefeitos no debate sobre o tema, citando o anúncio do governador João Doria no dia anterior. Ele defendeu a liderança do Ministério da Saúde nesse tipo de discussão.

“Esse assunto nós já sabemos, não é? O governador de São Paulo e outros chefes de Executivos, seja de estado ou município, muitas vezes interferem no processo decisório a respeito da imunização”

Marcelo Queiroga

ministro da Saúde, em entrevista para jornalistas na quarta-feira (9)

Apesar de não recomendar a aplicação da quarta dose para todos, Queiroga disse na segunda-feira (7) que há imunizantes para cumprir com a demanda. “Nós temos doses para garantir todas as aplicações necessárias”, afirmou também em entrevista.

O que diz a ciência
Segundo cientistas, ainda não há consenso sobre eventuais benefícios da quarta dose da vacina contra a covid-19 para a população geral. Apesar de os primeiros estudos sobre o tema terem sido publicados já no início de 2022, são necessários mais outros para que as evidências sejam consideradas robustas.

Os principais resultados publicados até agora vêm de Israel, pioneiro na aplicação da nova dose de reforço. Com o avanço da variante ômicron, desde dezembro de 2021 o país tem permitido que idosos e profissionais de saúde se vacinem contra a covid-19 pela quarta vez.

Imagem mostra profissional de saúde sentada, de touca, máscara e jaleco branco abrindo uma caixa da vacina. Em cima da mesa tem uma bandeja com um maço de algodão e um iPad

FOTO: DIVULGAÇÃO/INSTITUTO BUTANTAN – PROFISSIONAL DE SAÚDE SE PREPARA PARA APLICAR CORONAVAC EM MORADORES DE SERRANA, NO INTERIOR DE SÃO PAULO

Estudo preliminar publicado pelo Sheba Medical Center no dia 17 de janeiro — cerca de 20 dias desde o início da aplicação do segundo reforço —, por exemplo, apontou que a quarta dose da Pfizer aumenta os anticorpos para níveis ainda mais altos do que a terceira. Apesar disso, o valor não é suficiente para barrar a infecção pela variante ômicron.

Após a publicação, o diretor-geral do Ministério da Saúde israelense, Nachman Ash, afirmou que, por proporcionar proteção robusta contra doença grave, o novo reforço continuaria a ser aplicado.

Outro país que aprovou a aplicação da quarta dose além de Israel foi o Chile — que começou a vacinar mais uma vez a população acima de 55 anos no dia 7 de fevereiro. Ainda não há dados, no entanto, sobre a experiência, que ainda é muito recente para ser avaliada.

Imagem mostra fila em saguão de centro de convenções. Cada trabalhador da saúda está a 1,5 metro de distância do outro, de acordo com marcação no chão. Ao fundo, atrás de uma grande janela de vidro, é possível ver uma aglomeração de pessoas à espera da vacina

FOTO: RODOLFO BUHRER /REUTERS – 28.JAN.2021 – TRABALHADORES DA SAÚDE FAZEM FILA PARA RECEBER CORONAVAC EM CENTRO DE CONVENÇÕES EM CURITIBA, NO PARANÁ

Com esses resultados, sociedades científicas como a Sociedade Brasileira de Infectologia, no Brasil, afirmam que a prioridade no momento é aplicar a terceira dose. Diversos estudos comprovam que ela oferece eficácia relevante contra a variante ômicron.

Parte dos cientistas critica a decisão de aplicar a quarta dose afirmando que a cobertura vacinal de primeira, segunda e terceira ainda estão insuficientes no país. A campanha brasileira de imunização contra a covid-19 estagnou no segundo semestre de 2021. Estados como São Paulo dizem querer intensificar a busca por quem não tem vacinação completa.

78,5%

da população brasileira recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19, segundo dados de sexta-feira (11) do consórcio de veículos de imprensa

70,8%

recebeu as duas doses ou a dose única, completando o esquema vacinal, segundo os mesmos dados

25,7%

receberam a terceira dose de reforço

Em nota técnica divulgada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (11), a SBI faz a ressalva sobre a quarta dose apenas para o grupo dos imunossuprimidos, cujo esquema vacinal básico (por conta da baixa imunidade) já é composto por três doses. Nesse contexto, a quarta é “altamente recomendada como dose de reforço, como se fosse a terceira dose para a população em geral”.

Especialistas também têm dúvidas sobre recomendar a quarta aplicação da vacina por acreditarem que muitas doses podem causar um tipo de “fadiga” no sistema imunológico, prejudicando a habilidade do corpo de combater o coronavírus, sobretudo nos mais velhos. Essa hipótese, porém, não foi confirmada.

Para a SBI, situações como a de Botucatu e do Mato Grosso do Sul, que já começaram a aplicar a quarta dose em grupos além dos imunossuprimidos, devem ser encaradas como excepcionalidades e analisadas segundo o contexto local. “Há carência de dados mais robustos que justifiquem a aplicação em termos de efetividade no país como um todo”, segundo nota técnica.

Imagem mostra mulher sentada, de blusa preta com desenhos de flores, máscara branca de pano e olhos fechados, recebendo vacina no braço direito

FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS – 18.MAR.2021 – PROFISSIONAL DE SAÚDE APLICA DOSE DA CORONAVAC EM MULHER NO RIO DE JANEIRO

Experiências como essas podem ser interessantes para avaliar o resultado em cidades cuja cobertura com a terceira dose avançou, mas a maioria da população idosa foi vacinada com três doses da Coronavac, vacina de vírus inativado. Em geral, as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca têm sido mais recomendadas como terceira dose.

Desde o segundo semestre de 2021, cientistas avaliam a possibilidade de que a covid-19 se torne uma doença endêmica — que está sempre presente, e com a qual a sociedade aprende a conviver, como a gripe. No cenário que parece ser o mais provável, caso o coronavírus não desapareça, pode ser que seja necessária a vacinação anual contra a infecção.

Os estudos atuais sobre a quarta dose, no entanto, não têm se voltado à utilidade da vacina em um cenário de endemia — mas buscado entender sua efetividade no contexto atual, com a disseminação da variante ômicron. Mais transmissível que as versões anteriores do coronavírus, a cepa, descoberta em novembro de 2021 na África do Sul, tem provocado explosões de novas infecções em diversos países e desafiado autoridades de saúde.

O peso na desigualdade vacinal
Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), ainda não há evidências de que a quarta dose da vacina contra a covid-19 será necessária para toda a população. A agência da ONU afirma que os países devem primeiro atingir altas taxas de cobertura vacinal entre grupos prioritários, como idosos e profissionais de saúde.

A oferta de vacinas deve ser suficiente para a maioria dos países em 2022, segundo a diretora de Imunização da organização, Kate O’Brien. O desafio, no entanto, é fazer com que essas doses cheguem igualmente para todos os lugares. “Temos países com menos de 10% de cobertura”, disse em entrevista para jornalistas em janeiro.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, um homem negro, de bigode, óculos e cabelo grisalho, fala ao microfone. Atrás dele há um painel azul da OMS

FOTO: DENIS BALIBOUSE/REUTERS – 28.02.2020 – TEDROS ADHANOM GHEBREYESUS, DIRETOR-GERAL DA OMS

Em 2021, primeiro ano da vacinação na maioria dos países, a OMS havia alertado para o risco de os imunizantes se concentrarem em países de alta renda. “A crise das vacinas é uma desigualdade escandalosa que está perpetuando a pandemia”, disse naquele ano o diretor-geral da organização, Tedros Adhanom.

Enquanto países com altas taxas de cobertura vacinal — como é o caso de EUA, parte da Europa, Israel e agora o Brasil — cogitam aplicar a quarta dose em sua população, 85% da população que vive em países do continente africano não recebeu nenhuma dose de covid-19, segundo dado da OMS divulgado nesta sexta-feira (10).

A taxa de não vacinados na região supera a porcentagem de pessoas que não se imunizaram em todos os outros continentes: América do Sul (20%), América do Norte (30%), Ásia (29%), Europa (33%) e Oceania (25), segundo dados do Our World in Data. O site não exibe dados para a América Central.

6 milhões

de pessoas são vacinadas a cada semana na África, em média; número precisa chegar a 36 milhões para que o continente alcance 70% de imunizados até julho de 2022

Mesmo nos casos em que há doações de vacinas para a África — cerca de 587 milhões foram enviadas até agora por meios como o mecanismo Covax, o que poderia imunizar com uma dose pouco menos da metade da população —, há dificuldades ligadas à aplicação rápida de doses.

Em comunicado à OMS, o governo da Nigéria afirmou em dezembro de 2021 que havia destruído 1 milhão de doses de vacinas produzidas pela AstraZeneca que haviam sido doadas por países ricos próximas da data de vencimento. O país informou que não aceitaria mais imunizantes dessa forma.

Em 2021, quando os primeiros países começaram a aplicar a terceira dose de reforço, a OMS também criticou a iniciativa. A organização afirmou que a desigualdade na aplicação de vacinas prejudica não só as pessoas que não receberam doses, mas toda a saúde global — já que é necessário imunizar a população globalmente para frear a pandemia.

Blog do Rosálio Daniel

 

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